Dias de Verão


Ela corria afoita para casa. Pisava por folhas. Qualquer tipo de folha. Achas que prestava atenção? Evitava pequenos galhos. Mais folhas. Sabia do barulho, mas como escutá-lo? Não podia atentar neste detalhe. Sabia que estava atrasada e que sua mãe novamente reclamaria desses longos passeios, onde sempre perdia a hora por causa dos bichinhos ou da paisagem. Por que perde tanto tempo com o céu? Céu é céu! Azul ou cinza. Amplo. Mas é céu! Ao abrir o portão e, então, entrar em terras conhecidas sentiu uma mão puxando seu braço com força. Como um corpo que volta sem muito querer ao instante anterior. Onde estavas? Ontem disseste que passaria o dia comigo, que ficaríamos juntos. O que está acontecendo? E ela nada respondia. Muda de boca aberta, fazendo esforço para soltar seu braço daquela mão forte. Sem força, sem anseio algum de tirar a sua pele do contato dele. Duas energias agindo e um conflito namorando o cenário. Me largue! Quando fez isto iniciou uma corrida sem sucesso. Parou, em seguida, olhando seus pés, que não queriam correr em direção à mãe ou para casa. Pretendiam voltar. E quase fechava os próprios olhinhos para sonhar com o retorno. Voltou-se e percebeu a vista baixa, tímida, procurando chamar atenção daquela que, por nada, desejava se prender. Dizia que passarinho na gaiola cantava muito menos. Reiniciou a corrida e jogou-se no pescoço dele. Agarrada beijou-o na boca, nos olhos. Pegou em sua mão e chamou-o para um pequeno galpão, onde se guardava a lenha para o inverno. O calor de janeiro fazia com que todos esquecessem aquele lugar. Menos eles. As frestas entre as tábuas criavam uma luz agradável para a intimidade. O assoalho de madeira rangia. As paredes, quase greta, daquela terra cúmplice. Esconderijo de quem ama. Ao entrarem de passo em passo, ela no centro despiu a blusa e a saia. Discretamente e devagar. Quase como um espetáculo em câmera lenta. As tartarugas e as lesmas amam. Inteira compaixão. Estar de lingerie na frente dele já era normal, era continuamente esperado. Ele, sem camisa, apenas precisava livrar-se da calça, que carregava as pernas sempre arregaçadas. Ele era pele, sem artíficios. Tom de terra. Vivia livre. Vivia inteiro. Ajoelhada ela puxou sua calça até o chão. Encostou seu rosto no pênis que se encontrava morno. A face queimava. Suas mãos deslizavam por aquelas coxas delineadas e de pêlos selvagens. Sua boca, tão saudosa de contato. Beijou seu pênis, chupou-o delicadamente, mas seu cheiro a excitava. Os lábios procuravam algo quase perto da agressão. Fugir por muitos redemoinhos. Se perder naquela quase escuridão. E depois gritar. Gritar tanto que os ouvidos se sentiriam agredidos por tanta paixão. Morder o céu concentrado a sua frente. Num impulso ele a puxou para si. Não queria gozar sozinho. Por que insistir na solidão, se a vida oferece uma valsa em braços tão doces? Esperava que estrelas se encontrassem ou que um cometa esbarrasse na terra. Num beijo engoliu sua boca e suas mãos repletas de agilidade a despiram totalmente. Eram os dois nus, se tateando, redescobrindo corpos já conhecidos. Jogaram-se ao chão de tábuas amadeiradas, sem frio, enlaçados em pedidos e anseios. E ele a penetrou com desejo de tantas vidas. Com o pênis agora quente. Já nada havia de mistério. Com os dedos enroscados em seus pêlos. Já era presente sendo sentido. Com sussurros de “eu te quero”. E ela se entregou inteira, esquecendo o galpão, o atraso para o lanche da tarde, a boa educação herdada, as diferenças entre nomes, o cheiro de alfazema nas suas roupas sempre limpas e alvejadas. Ela esqueceu tudo e experimentou a nuvem branca atropelando seus sentidos e adormecendo seu corpo.
Na hora do jantar a mãe reclamou de sua indiferença em relação aos hábitos da casa. Ela não se importava. Nada ouvia. Apenas fingia estar ali. Sequer provou as comilanças da noite. Disfarçava um leve sorriso, que fugia de seus lábios e já contagiava o rosto. O copo permanecia cheio e os talheres, espalhados pelo prato com comida. Ali mesmo ela coçava a cabeça do esquilo, que estava tão quietinho no seu colo. Escondido sob a toalha de crochê em tons de azuis, feita por sua avó falecida. Logo, logo a mãe cansaria do sermão e iria para o quarto. E mais tarde ela o levaria ao galpão da lenha, onde a mágica continuaria.

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